17 janeiro 2006

"Antes que se curvem as minhas costas..."

“Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer;...”Ec 12.1


Todo “escritor” tem um “pano de fundo” nos seu escritos. Está inserido num contexto social, político, religioso, familiar e etc. E no contexto de suas mais recente experiências e descobertas. Bem, o meu “pano de fundo” tem sido, humanamente falando, um contexto de sofrimento. Não de um sofrimento extremo, insuportável. Mas de um sofrimento inesperado, que envolve todas áreas da minha vida e todos os meus relacionamentos, seja com Deus, família e amigos. Parece um pouco teórico isso, mas é a crua realidade.

Não tenho sofrido as dores da doença, mas os efeitos da quimioterapia são implacáveis. A minha quimioterapia é de “altas doses”. E como diria o meu médico: “não é pra qualquer um não”. Mas em um contexto de sofrimento nem tudo é sofrimento. As alegrias são inúmeras. Teria que estar com a mente obscurecida para não admitir isso. Bem, não era exatamente sobre isso que eu queria falar.

Quem estiver lendo isso medite profundamente nisso.

Hoje eu vi uma velhinha no hospital. Estava deitada na cama.
Pálida, careca e com uma expressão de desesperança. Isso tem me causado incômodo e certa vontade de chorar. Penso: “eu sei o que você esta sentindo”. Novamente penso: “sei, mas não sei.” Porque eu sou jovem, tenho uma vida inteira pela frente, tenho o entusiasmo de um jovem e minha resistência física é bem maior. Aprendi que aquela pessoa ali, pálida, com aquela expressão, nem sempre foi assim. Aquele rosto já teve outras expressões. Um dia já riu. Um dia já se alegrou. Um doente, pelo menos os pacientes de câncer, um dia já foi “normal”, isto é, nem tudo na vida era os tratamentos pesados. Parece óbvio pensar assim, mas não é tão óbvio assim. Eu tive que sentir na pele pra aprender isso. Aprendi a me incomodar com sofrimento alheio. E esse incômodo não deve ser um sentimento de pena, mas de compaixão. Algo que gere uma ação frente ao que se vê. Uma preocupação genuína com a pessoa. Mesmo que não tenha nada a falar, existem inúmeras formas de ajudar. Se preocupar de forma sincera e prática já é um começo.

Se você não se preocupa com o sofrimento alheio, seja nas suas inúmeras formas, é bom começar a se preocupar. Porque as pessoas existem e as pessoas estão “sofrendo dores” por todos os lados. Não é preciso ir muito longe pra achar. E os “maus dias” um dia chegarão para nós. Cedo ou tarde. A velhice chega, as doenças chegam e a violência nos rodeia incessantemente. Não quero passar um idéia de pessimismo e desespero. Mas quero dizer que devemos nos preocupar com próximo de forma mais prática e menos teórica. Que devemos olhar menos para o nosso umbigo. Quero dizer que as pessoa tem necessidades e devemos ajudá-las nisso, pois pode ser que um dia precisemos também. Não com uma motivação egoísta mas com uma preocupação desprendia de interesses. O mundo carece disso.

Bem, esse é o meu “pano de fundo”. E que Deus nos abençoe nisso.

5 Comments:

At 8:41 AM, Anonymous Fábio said...

Concordo com vc meu chapa.
E que Deus nos ajude nisso.

 
At 7:19 PM, Blogger liz said...

mas como? como?.. porque, por mais que eu me comova,por maiores que sejam os meus gestos tenho um sentimento de insignificância diante do quadro maior.
.. a não ser quando eu me refugio em pensamentos e promessas eternas que contrapostos à efemeridade da vida ressaltam a preciosidade da fé verdadeira..
respiro a esperança viva..
e encontro algo a transparecer

 
At 9:49 PM, Anonymous LeLê said...

bem liz, esse é uma desafio da fé cristã. ser o "bom samaritano" não é fácil. jesus não nos prometeu que seria fácil, mas segundo Ele,agindo assim estariamos verdadeiramente amando ao próximo. C.S.Lewis disse uma coisa interessante sobre o cristianismo:
"Quando diz que devemos dar comida ao faminto, não nos dá lições de arte culinária. Quando diz que devemos ler as Escrituras, não nos dá lições de hebraico e grego, nem mesmo de gramática da nossa lingua"

Que Deus nos abençoe nesse desafio

 
At 2:35 PM, Anonymous Alyson said...

Poxa, interessante o que vc escreveu!!! A mais pura verdade! Um abraço cara!!

 
At 1:35 PM, Blogger Lissânder said...

A compaixão tem a ver com o "esvaziar-se" de Fp 2.5-11. É uma atitude profunda que envolve todo o nosso estilo de vida (pensamentos, gestos pequenos e grandes, reações à vida...).
Não é simplesmente um sentimento, é uma atitude. Guiada pelo Espírito.

 

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